quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Yara pescadora! [9]


Mais uma vez acordei cedo. O sol ia rompendo o nevoeiro e eu deixei-me ficar sentindo o tempo passar sem pressa, parece que tudo voltava a andar lentamente, excepto o meu mar que se agitava e me acalmava entre uma vaga e outra…


Finalmente consegui desfazer as malas, arrumar tudo e saber o sítio das coisas. Preparava-me para sair quando tocou o telemóvel:

- Yara!
Reconheci de imediato o número e a voz…
- Sim, Paulo, como estás? Dentro de alguns minutos conto estar aí!
- Não, não venhas.
- Então? Que se passa?
- Deixa acalmar as coisas, deixa esta gente esquecer um pouco o assunto, depois de amanhã vou a julgamento e só depois saberei quanto tempo vou ficar por aqui.
- Ah! Compreendo…
- O meu pai vai querer pagar a caução, mas eu não quero.
- Então?
- O meu pai pensa que resolve tudo, e compra todos com a porcaria do dinheiro dele, mas eu não quero, ficarei aqui o tempo que o juiz deliberar. Ah! Tem cuidado com o Dr. Álvaro…
- Não preciso
- Precisas sim, tu não o conheces, ele trata todos como se fossem lixo…
- Não te preocupes, mas diz-me estás mesmo bem, dentro das condicionantes?
- Sim estou, pensei que isto fosse pior; Já leste a minha carta?
- Já li, obrigado pelas tuas palavras, entendeste-me na perfeição. Também te quero muito bem, mas sem correntes…
- Eu sei!
- Olha, não entendi o que eu posso ter a ver com a medicina, acredita que isso me deixou intrigada…
- Eu imaginei, podes não ter a ver com medicina, mas terás certamente a ver com o coração, explico-te tudo numa outra carta que a minha mãe te entregará, não dá para estar a falar ao telefone e não sei quando poderás cá vir, mas por favor, não venhas sem eu dizer, tá?
- Tudo bem, farei como tu disseres. Tem juízo!
- Tenho, está descansada e aproveita para descansar! Agora tenho que desligar, está a acabar-se o dinheiro no cartão…
- Adeus, até outro dia!!
- Adeus Yara, e obrigado!

Desde que cheguei, os planos eram sempre alterados, por isso não faria mais planos, viveria um dia de cada vez, sem me impor, sem esperar nada, apenas deixando as coisas acontecer.

Saí, levando a lembrança que tinha trazido para a Dª Esmeralda e para o Sr. José, iria a pé, assim aproveitava para caminhar um pouco...
Adoro a praia no Inverno, quando fica sem ninguém, apenas o mar, a areia e eu. Caminhando sozinha sobre a areia sentia-me a imperadora daqueles caminhos sem fim, onde não havia nada, e ao mesmo tempo tudo...

Ainda estava distante da aldeia dos pescadores e já vejo a Dª Esmeralda de braços no ar a chamar por mim:

- Yara, Yara! Até que enfim menina!
Eu acenei-lhe também e apressei o passo. Quando cheguei já tinha dois braços abrtos à minha espera:
- Querida! Há tanto tempo que não te via, e os paizinhos estão bons?
- Sim, está tudo bem!
- Ai, filha, não fiques ali sozinha, vem até aqui ao pé de nós mais amiúde.
- Virei, Dª Esmeralda, mas tenho os meus trabalhos para fazer e para isso preciso de estar sozinha, compreende?
- Pois, eu sei, filha, mas custa-me que estejas ali isolada e sozinha.
- Não se preocupe, quando me sentir só, eu virei até aqui.
- Bom, vou pôr mais um prato na mesa, almoças connosco!
E adiantava dizer que não?
- Claro que sim, com todo o gosto!

O almoço foi um divertimento, a recordar tempos passados. Sentia-me bem com aquela gente tão simples quanto eu, mas, era hora de partir, não sem antes fazer um pedido ao Sr. José:

- Amigo, queria pedir-lhe uma coisa…
- Então Yara? Tudo o que tu quiseres!
- Agora que já sou crescida, já me pode levar à pesca, que acha?
Mas, logo a Dª Esmeralda interveio:
- Ai, filha, deixa-te disso, a pesca é para os homens e homens de barba rija.
- Ò mulher, desde pequenina que a Yara quer ir à pesca, conta com isso, queres ir já amanhã?
- Fala a sério? Quero pois!
- Então está descansada que ainda hoje deixo na tua casa o teu equipamento, aproveita para descansares porque partiremos noite dentro!
- Ai! Meu Deus ajude esta gente que não sabem o que fazem, onde é que já se viu, mulher ir para a pesca!
- Esteja descansada Dª Esmeralda, vai correr tudo bem!

Deixei a casa saltitante de alegria, era pequenina e almejava um dia ir à pesca, e parece que esse dia estava a chegar!

terça-feira, 3 de agosto de 2010

De volta a casa...[8]

Fiquei no alpendre até ao anoitecer, sentia-me bem, sentia-me forte, apesar de todos os disparates que tinha acabado de ouvir. Fiquei a pensar naquele encontro e no sofrimento que aquele homem devia gerar à sua volta e nele próprio…
Era hora de entrar, a casa estava fria e mergulhada em silêncio, acendi todas as luzes, como que procurando algo, mas tudo estava no seu lugar e o Paulo estava na prisão e não ali. Lembrei-me de repente do telemóvel, fui procura-lo. Encontrei-o. Liguei-o e entre muitos números havia um que se repetia várias vezes, era o Paulo, de certeza. Mas não adiantava eu ligar, havia mensagens e uma de voz. Ouvi, era o Paulo dizendo que estava bem e para eu ter cuidado com o pai dele. Eu ri, pois já tinha dominado a fera!
Eu estava a rir, eu estava descontraída, sentia-me forte e ia conseguir cuidar do Paulo.

Agora a lareira era a minha única companhia e o som da lenha a crepitar o único que ousava penetrar o silêncio. Ia pensando o motivo que me trouxe ali, que era passar uns dias em sossego comigo própria, mas tudo estáva modificado, teria que ir visitar o Paulo, e quando o poderia visitar? Teria que me preparar para o visitar, teria que lhe passar uma mensagem forte, que lhe desse confiança e força...
De repente lembrei-me da carta do Paulo, ainda a não tinha lido, pensava lê-la na praia, mas depois apareceu o Dr.Álvaro... Mas agora seria a altura. Procurei-a no casaco e lá estáva à minha espera. Prometi a mim própria independentemente do que estivesse escrito eu continuaria a minha missão de cuidar do Paulo.
Peguei-lhe, estava a custar-me abri-la, mas tinha que ser…

“Querida Yara,
Quando leres estas minhas palavras já não estarei aí contigo, estarei na prisão e muito feliz, feliz por te ter encontrado.
Vou aproveitar o tempo que ficar na prisão para estudar bastante, para quando sair terminar o meu curso, não te cheguei a dizer qual é, tu também não perguntaste, é medicina. Tenho planos, sempre os tive, mas agora ainda mais, o meu pai sempre pensou que eu ia ser um famoso médico, que ia ter consultórios espalhados pelo país e o meu nome a dourado numa placa, mas essa nunca foi a minha intenção, por isso querida Yara, espera por mim, gostava de trabalhar contigo, com o tempo te direi os meus planos! Talvez possamos até começar já a trabalhar (mesmo não sabendo nada de ti, nem dos teus planos…)

Pensaste que ia dizer que te amo?
Sim, querida, AMO-TE, mas isso não importa, li nos teus olhos que o teu coração é de guerreira e não se prende. O teu coração não suportaria ficar sufocado por uma única pessoa, o teu coração precisa de muitos corações, mas que nenhum te sufoque com as lamechices da paixão…No entanto, deixa-me dizer-te que perto de ti as palavras perdem o som, que o mundo acaba…Que como homem me foi difícil resistir, mas, para mim és Yara…um anjo que eu não ousaria tocar.
Conto contigo para cuidares de mim, a prisão será apenas um momento da minha vida, depois terei o tempo todo do mundo. E quero aprender a ser guerreiro como tu!

Um abraço e um beijo do teu amigo,

Paulo de Albuquerque


Li a carta, mais uma vez ou duas, quais seriam os planos do Paulo?
E o que medicina poderia ter a ver comigo?
Perguntas que me inquietavam…amanhã mesmo iria tentar falar com o Paulo…

Dr.Àlvaro ... [7]

Continuei dirigindo sem direcção ainda durante alguns quilómetros, mas resolvi parar. Entrei num café e pedi algo simples para comer-Rreparei na televisão do outro lado do café e uma frase que me chamou a atenção – Paulo de Albuquerque afinal está vivo – era o Paulo. Reconheci Maria e uma grande confusão em torno de tudo. Voltei a sair. Fui fazer umas compras, pois não tinha praticamente nada em casa. Sentia-me cansada, precisava mesmo de voltar para casa e descansar.
Chegada a casa, deixei as comprar no alpendre e antes de entrar, desci até ao mar…



O Sol ia caminhando para o ocaso, lentamente sem pressa. As nuvens ameaçavam chuva, e o mar majestoso, sempre igual e sempre novo, ali só para mim. Sentei-me na areia molhada e deixei-me ficar, precisava de me acalmar, de ganhar forças para abrir a porta de casa. Mas, de repente:

- Tu é que és a amiga do Paulo?
Assustei-me e virei-me repentinamente:
- E tu quem és?

Um homem dos seus sessenta e tal anos de barba e óculos, de fato e gravata. Soube de imediato quem seria…
- Eu sou o Dr. Álvaro de Albuquerque, pai do Paulo.
Já tinha estragado tudo, detesto quando as pessoas se apresentam colocando o título atrás, ele continuou a tratar-me por tu e eu também, indiferente ao Dr.:
- Muito prazer em conhecer-te, o Paulo tinha-me dito que eras advogado.
- E tu, como te chamas?
- Yara…
- E qual é o teu sobrenome, e o teu título?
- Chamo-me Yara, isso chega para todas as pessoas que me conhecem, para ti não chega?
- Já estou a ver tudo, tu és mais uma das amiguinhas do Paulo, que sempre fizeram tudo para lhe extorquir dinheiro e ainda o arrastaram para a situação em que ele se encontra.
- Eu?
- Sim, tu, não te faças de santinha, enganaste a minha mulher, mas a mim não me enganas, és uma cabra igual a todas as outras.
- Desculpa, estás a ofender-me.
- Tu é que me ofendes, fazendo-te amiga do Paulo, vocês estragaram-lhe a vida, só pensam em dinheiro. Eu tenho um império. Metade da cidade é minha. Sou alguém muito importante, embora esta história me tenha afectado um pouco, ainda mantenho o meu bom nome na praça; se bem que era preferível o Paulo estar morto. O aparecimento dele veio estragar tudo, as coisas já estavam esquecidas e agora novamente isto
- O quê?
- Vim aqui para te dizer que te quero longe do Paulo, nem penses em andar de volta dele e depois quando ele sair o velho conto de fadas “viveram felizes para sempre”. Quero-te longe, aqui tens um cheque, afasta-te, podes dar a volta ao mundo, faz o que quiseres, mas não te quero por perto.

Eu estava perplexa, abismada e quase a entrar em fúria, mas respondi-lhe com uma pergunta:
- És feliz?
Finalmente calou-se, aquele homem só sabia falar, não ouvia ninguém, era dono do mundo e da verdade, mas a resposta não vinha, por isso continuei:
- Não precisas responder, já sei a resposta. Quanto ao cheque, se te sobra, vai dá-lo aos pobres, e pelo menos uma vez na vida faz algo a pensar nos outros e não em ti e no teu dinheiro. Quanto à minha vida, sei muito bem cuidar dela, obrigado! Agora desculpa, mas tenho que ir.
- Espera, posso voltar?
- Podes voltar as vezes que quiseres, a praia é pública.
- Não entendeste, gostava de voltar a falar contigo, vou pensar na pergunta que me fizeste, nunca ninguém me fez…

Eu tinha conseguido desarmar o coração do “Imperador”, do senhor que manda em todos? Eu não estava a acreditar…
- Podes voltar, se eu estiver disponível, quem sabe!?

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

As cartas...[6]


Preparava-me para deixar a igreja, mas de repente e por impulso coloquei a mão no bolso do casaco... A carta. Eu não tinha dado a carta à mãe do Paulo, não era possível.  Tinha que correr, não sabia quanto tempo se havia passado, e como iria agora descobrir a mãe do Paulo? Perguntas para as quais não tinha resposta. 
Dirigi-me em passo muito apressado para a saída da igreja, mas antes que tivesse alcançado a porta, esbarrei com um senhor, e foram livros e folhas e mais folhinhas tudo espalhado no chão. Pedi-lhe desculpa.  Um a um apanhei tudo e voltei a colocar-lhe na mão:
- Peço desculpa, sou uma desastrada.
- Mas, ainda estás aqui?
Eu já não percebia nada…
- Conhecemo-nos? Chamo-me Yara.
- E eu António
- Prazer, mas não me lembro de antes nos termos cruzado. E agora desculpe que tenho um assunto gravíssimo para resolver, até um dia!
- Espera!
Voltei a parar, parece que quanto mais pressa, mais coisas me faziam perder tempo.
- Tu estavas na Missa ao lado da Dª Maria.
- Sim, estava, e?
- Não me viste?
- Não…
- Pois, reparei que não tiraste nem um segundo os teus olhos da Cruz.
- Estava a meu lado?
- Não, mas na tua frente, eu fui o padre que celebrei a Missa.
- Ah! Desculp,eu não reparei. Mas, conhece a Dª Maria?
- Sim, muito bem. Porquê?
- Pode conduzir-me a casa dela?
- Sim, com todo o gosto, mas que se passa?
- Explico-lhe pelo caminho, agora temos que ir antes que seja tarde.
E fomos.  Pelo caminho expliquei tudo e quando paramos à porta da casa do Paulo, Maria preparava-se para partir. Corri para ela e estendi-lhe a carta;
- Maria, desculpe, há bocado esqueci-me deste assunto, o Paulo pediu-me para lhe entregar esta carta.
- Obrigado, filha! Vou agora abraçar o meu Paulo. Ah! O meu marido quer falar contigo, onde te pode encontrar?
- Na praia. Depois da aldeia dos pescadores é a primeira casa, uma que está isolada, amarela, ele que vá ter comigo, possivelmente estarei lá. Força para si.
- Estou feliz, muito feliz querida, apesar de o meu marido não estar a lidar bem com a situação, mas ele há-de cair em si.
Despedimo-nos e voltei para o carro do padre António, apetecia-me andar a pé, mas seria uma falta de educação não ir com ele de volta, e fomos. Pelo caminho explicou-me que o pai do Paulo era um afamado advogado da praça e que com estas confusões do Paulo, o seu nome ficou beliscado, mas depois da “morte” do Paulo tudo tinha serenado, por isso entendia muito bem as palavras da Maria. Cheirou-me a confusão, mas nada disse, apetecia-me mesmo estar sozinha, por isso assim que me vi fora do carro, despedi-me:
- Padre António, agradeço-lhe por tudo, mas agora tenho mesmo que ir, já deixei tanta coisa para trás, havemos de nos voltar a encontrar!
- Vem ao Domingo á Missa.
Missa? Interroguei-me…
- Ah! Depois vejo. Mais uma vez obrigado!

De volta ao meu carro, pensei em ir para casa, mas não, a casa estaria certamente cheia do Paulo, precisava estar mais forte para voltar.
E fui andando sem rumo, estava cansada e nem conseguia pensar em nada; mas de repente travei, a carta, a minha carta? Procurei-a no outro bolso do casaco e lá estava dobrada. Passei-a de mão em mão, olhei-a de todos os ângulos, como que tentando adivinhar as palavras que ali dançavam. O que o Paulo me queria dizer que eu ainda não tivesse visto ou sentido?
A Carta voltou para o bolso, não era o sítio, nem o momento...

Dia D...[5]


Chegou então a manhã de mais uma noite sem conseguir dormir. Estava cansada de tanto pensar, de tanto me esforçar para que aqueles momentos não me custassem, mas iam-me custar...
Levantei-me ainda era noite, tentei relaxar no banho, mas eu tremia, o meu sistema nervoso estava alterado e esgotado, preparei-me para sair, arrumei o quarto, passei na sala e o Paulo ainda dormia. Saí, a neve ia derretendo, a temperatura tinha subido bastante, e o céu estrelado anunciava um dia de sol, sentei-me lá fora, tentando que o meu mar me serenasse, fechando os olhos e respirando fundo, deixando que aquele cheiro a mar me invadisse, e pouco a pouco ia vendo o sol a furar por entre a escuridão, devagar, sem pressa, e eu fui ficando amortecida, calma, sentia-me de novo, eu..YARA!

Entrei. O Paulo já tinha acordado e acendia a lareira:

- Bom dia! Preparado?

- Sim sócia! Vamos tratar do assunto, sinto-me mais forte que nunca, vai correr tudo bem!

- Óptimo é bom ver-te assim! Vá pequeno-almoço, banho e toca a andar!

- Ok! Chefe!
E era hora de partir…Paulo emocionava-se e ia dizendo:

- Desculpa, mas agora tenho que chorar, nunca pensei que a minha vida se resolvesse aqui…na “minha” casa, mas ainda bem que assim foi…Posso dizer-te uma coisa com carinho e muito respeito?

- Sim, claro! Podes dizer o que quiseres…

- Adoro-te.

- Eu também gosto muito do teu coração! Vá mas agora vamos, sabes que tem que ser!

E saímos, o percurso até à cidade foi um longo silêncio, salpicado de muitas lágrimas… Havia pouco trânsito, ainda era muito cedo, e íamo-nos aproximando… até que Paulo…

- Yara! Escuta uma coisa, não podes entrar comigo, deixa-me do outro lado da rua e vai ter com a minha mãe, ela costuma ir à Missa das 9 horas, tens que a apanhar lá, isto vai ser um escândalo, vai meter tudo ao barulho, jornais, revistas, televisão, como te disse o meu pai é alguém muito conhecido na cidade… E não quero que a minha mãe saiba por estes meios, mas por ti, por favor faz o que te peço, sei que pensavas entrar comigo, mas não pode ser, por favor!

De facto eu pensava entrar com o Paulo…

- Está bem, darei então a volta ao quarteirão e vou depressa ter com a tua mãe, fica descansado, chegarei lá antes das 9 horas…

Parei então o carro…Rabisquei o meu número de telemóvel num cartão e entreguei ao Paulo:

- Este é o meu nº, penso que anda desligado no fundo de um saco, hei-de procura-lo quando chegar a casa, quando puderes dá notícias, se não deres, é porque não podes. Eu fico descansada na mesma, peço-te que te portes à altura, isso tu já sabes, agora vai, sê forte!

- Adeus Yara, até breve!

E deu-me um beijo na testa.


Vi-o partir… Agora era eu que tinha que chorar, atravessou a rua e antes de entrar disse-me adeus…

Estava feito. Mas eu ainda tinha uma longa missão para cumprir… Arranquei e dirigi-me então à igreja que o Paulo tinha dito, entrei e aquele silêncio profundo entrou em mim…Olhei para o local que o Paulo me recomendou e lá estava uma senhora vestida de preto. Sentei-me ao seu lado. O meu corpo voltou a tremer, eu tinha que dizer à senhora que o seu filho Paulo afinal estava vivo e na prisão…A senhora sorriu para mim quando me viu chegar e eu no meio dos nervos retribui…

Eu olhava Cristo na Cruz e perguntava-Lhe porque tudo tinha que ser assim tão difícil, tão penoso, mas ao mesmo tempo recuei…Deixa lá…Que posso eu dizer-Te de coisas difíceis e penosas que Tu não saibas? Ajuda o Paulo…e dá-me uma mãozinha, porque eu não sei como vou sair desta com a mãe do Paulo…

A Missa começou, há imenso tempo que eu não ia à Missa, mas fez-me bem, acalmei-me e no final já sabia tudo o que tinha a fazer…Pedi à mãe do Paulo que ficasse, eu precisava de falar-lhe…

- Desculpe, mas seu precisava muito falar com a senhora, será que me pode dispensar uns minutinhos? Gostava que fosse aqui dentro da igreja…

- Claro, filha, eu tenho todo  o tempo do mundo…

Ficámos em silêncio, até que as pessoas saíssem, depois comecei…

- Chama-se Maria não chama?

- Sim, mas como sabes?

- É uma longa história…Sabe, eu sou amiga do Paulo…

- Ah! Foste amiga do Paulo? Ele era uma jóia de menino, mas as companhias estragaram-no e para não nos envergonhar matou-se…Uma tristeza, eu queria mil vezes ser envergonhada…

- Maria…Não entendeu bem o que disse…

- Então filha? Ai! A minha cabeça já não dá nada, isto do Paulo acabou comigo…

- Olhe e se o Paulo estivesse vivo? Ficava contente?

- Ele vive, querida, junto do Pai!

Ai, meu Deus! Isto estava cada vez mais difícil…Ìamos passar ali o dia nesta conversa de surdos…

- Maria! O Paulo é meu amigo!

- É teu amigo?

- Tenha calma por favor…Sim! O Paulo é meu amigo e está vivo!

Maria abraçou-me com toda a sua força…

- Tens a certeza, filha? Onde está o Paulo que eu também o quero abraçar?

- Maria, sabe o que o Paulo fez, sim?

- Sei sim, o Paulo está preso, é isso?

Abanei com a cabeça que sim…

E Maria mais uma vez me abraçou, enquanto ia agradecendo a Deus, depois continuou…

- E quando ele foi preso?

- Há poucos minutos, fui eu que o deixei lá a pedido dele…

- Então tenho que ir para casa avisar o meu marido, isto vai ser um escândalo, mas ainda bem, porque vou poder abraçar de novo o meu querido filho. Obrigado por tudo, voltaremos a falar-nos!

- Maria saiu, levava com ela a vida, a esperança!

- E eu finalmente serenei em mim as emoções...Sentia-me exausta, mas estava a sentir-me tão bem ali na igreja que acabei por ficar um longo tempo…Queria estar ali apenas, não queira pensar no que ia fazer a seguir...

domingo, 1 de agosto de 2010

As revelações...[4]


O Paulo abeirou-se do lava-loiças para lavar as chávenas do pequeno-almoço e eu fui tentar descobrir algo. Voltei passado uns instantes carregada de luvas, cachecóis, gorros. O Paulo ria:
- Ahaha! Onde vais com tudo isso? Vais agasalhar metade do mundo?
- Não! Tudo isto é para nós, vamos brincar para a neve!
- A sério?
- Sim! Mas temos que nos agasalhar bem não vamos correr o risco de ficarmos doentes…
- Espera, não é prudente irmos…Podem ver-me e ainda mais contigo,não te quero complicar a vida…
- Que ideia tonta, depois de vestirmos isto tudo ninguém nos reconhecerá e depois olha, gosto de arriscar!
E rimos, enquanto íamos vestindo os agasalhos…
Lá fora, o sol tinha ido embora, o nevoeiro adensava-se e um longo tapete branco cobria tudo, era lindo demais, ao fundo o mar parecia serenar todo este cenário deslumbrante…
E fomos para a neve! Atiramos bolas, fizemos bonecos de neve, rimos, rebolamos na neve, parecíamos crianças, até que cansados de tanta azáfama, paramos um pouco…E o Paulo ia dizendo:
- Que bom que nevou, não me lembro de alguma vez ter nevado na praia, nunca me lembro de ter visto este quadro maravilhoso, e sei que só aconteceu porque tu vieste e eu te encontrei, sei que se aproxima um momento muito sério na minha vida mas pela primeira vez não tenho medo;
e depois levarei comigo estes momentos que hão-de perdurar para todo o sempre em mim, ainda que nunca mais saia da prisão, serei feliz para sempre!
- Ainda bem que perdeste o medo! E, sim, ainda bem que nevou, se não tivesse nevado não nos teríamos divertido assim!
E…toma lá mais uma bola de neve ahahaha! E mais uma corrida!!!
De repente noto que está alguém batendo à porta de casa e chamando…
- Ficas aqui! Eu vou ver o que se passa.
Aproximei-me e vi que era um pescador, trazia um peixe enorme…
- Yara! Então menina, como tens passado? E os paizinhos também vieram?
- Olá Sr.José! Está tudo bem, os meus pais não vieram, mas ficaram bem, peço desculpa de não ter ido a sua casa, mas só cheguei ontem à noite e hoje com este nevão, fui ficando por aqui…
- Pois, fazes bem! Já vi que vieste com o namorado! Depois passas lá em casa com ele, quero conhece-lo!
- Namorado? Não, que ideia, é apenas um amigo que veio comigo, deveria seguir viagem esta manhã, mas por causa da neve…
- Ai amigo, pronto está bem! Agora mudam os nomes às coisas e “tásse bem” como vocês dizem!
- Ó Sr.José! ahahaha! Isso nem parece seu, então se fosse meu namorado eu dizia.
- Pronto está bem! Olha, se calhar nem têm o que comer, trouxe-vos este peixe, escolhi o maior, está fresquinho! E se precisares de alguma coisa é só dizeres, está bem? Vá, dá cá um abraço daqueles!!!
Abracei o Sr. José com todo o carinho, e com uma vontade de rir imensa, por causa dos pensamentos dele!
- Passarei lá em casa assim que o tempo o permita, tenho ali umas coisinhas para vocês! Abraço à Dª Esmeralda também!
E assim nos despedimos. Quando vi que o Sr.José já não me podia ouvir, desatei a rir à gargalhada, até que o Paulo me ouviu e veio ter comigo:
- Então? Que se passa, estás bem?
- Sim, muito bem! Não se nota! Estes pescadores contam umas anedotas muito engraçadas! Mas, olha já temos almoço!
E mostrava-lhe o peixe que parecia sorrir para nós!

Depois de tudo arrumado, o Paulo ficou na sala e eu fui para o meu quarto, precisava de estar sozinha, precisava de me entender, vesti o casaco e abri a janela, para melhor ouvir o mar, para me deixar preencher por ele e por aquele manto branco. Fiquei ali, sentada no parapeito da janela imenso tempo. 
Eu tinha um criminoso em casa, disso não havia dúvida, mas era um criminoso que tinha um coração tão doce, quanto o de uma criança…Que mal ele teria feito? Eu sentia-me frágil, como é que eu podia ir com ele à polícia, como é que ele ia aguentar ficar preso? Eu chorava, achava tudo uma grande injustiça, apetecia-me dizer ao Paulo para fugir…Sim! Não! Ai meu Deus ajuda-me a ser forte! Tentei não pensar em nada, ficar ali apenas…Acabei por adormecer e quando acordei se houvesse sol, possivelmente ele já teria ido embora…

Desci, O Paulo estava sentado no chão junto à lareira, chorava…
Quando me viu, disse:
- Choro de alegria! Por este dia! Não tenho medo! E isso é fantástico!
Eu sorri…Para não chorar
O jantar foi algo simples, leite, torradas e iogurtes.

Findo o jantar sentámo-nos junto à lareira e eu arrisquei:
- Paulo, afinal qual foi o crime que cometeste? Se achas que podes e queres dizer…
- Claro que posso, ainda não tinhas perguntado, pensava que me ias perguntar logo no início, mas tu, fazes tudo ao contrário dos outros…
- Ahahah! E…Isso é uma crítica ou um elogio? Bom, adiante…
- Pois, o crime de que sou acusado refere-se a assaltos, a carros, casas, se queres saber nunca roubei nada…Era mesmo pelo gosto de destruir, sei que foi mau, muito mau, mas quando somos novos parece que temos que ser donos do mundo e depois quando queremos recuar é tarde, é sempre tarde… 
Há um ano que deixei a casa dos meus pais, e olha que eu até vivia bem, falta-me um ano para acabar o meu curso, o meu pai é advogado…Imagina a vergonha que ele passou, ele e a minha família, por isso lavei tudo com sangue…
- O quê????
- Calma, o lavar com sangue foi encenar a minha morte, deixei uma longa carta escrita, explicando tudo o que estava a acontecer, e que não tinha cara para aparecer, por isso ia-me suicidar, mas de um modo que eles nunca encontrariam o meu corpo por mais que o procurassem, etc, etc…
- Fizeste isso? É horrível? Fizeste mal em “lavar com sangue”, isso não se faz, e de certeza que os teus pais te preferem preso do que morto!
- É verdade, tens toda a razão, mas só hoje cheguei a essa conclusão…Olha, quero-te pedir um favor enorme…
- Sim…Se eu puder…
- Podes ser tu a dar a notícia à minha mãe? Para o choque não ser tão grande quando sair nos jornais…Eu não posso ir lá agora…A minha mãe morria do coração se eu aparecesse, é melhor saber quando eu já estiver na prisão…
- Ai menino! Tu pedes-me cada coisa! Mas, sim, eu farei isso!
- Obrigado Yara, um dia recompensarei-te!
- Deixa-te disso, o que faço é porque quero e porque posso, não espero nada.
- Eu vou escrever uma carta à minha mãe, ela merece, mas primeiro terás que falar com ela, com cuidado, como tu sabes…
- Está bem! Tens aí papel e caneta e deixo-te por agora.

O Paulo ficou a escrever e eu fui esticar-me um pouco, tudo se estava a encaminhar para o seu desfecho tudo me custava cada vez mais, mas tinha que ser…
Deixei passar um bom bocado, horas possivelmente e fui novamente ter com o Paulo, que já tinha terminado e estendeu-me duas folhas dobradas e separadas, enquanto dizia:
- Esta é para a minha mãe, e esta é para ti, mas peço-te que só a leias quando eu já não estiver aqui, pode ser?
- Tudo bem! Vou guarda-las! Está descansado, tudo se passará segundo as tuas instruções!
- Agora vou pedir-te outra coisa, não procures a minha mãe em casa, procura-a na igreja, ela vai lá todos os dias, eu tenho ficado a vê-la de longe… Olhas para mim e não terás dificuldade em reconhece-la, chama-se Maria.

Igreja? Há tanto tempo que não entrava numa igreja, costumava ficar com Ele em qualquer sítio, mas pronto faria o que o Paulo me pedia…
- Está descansado, farei tudo como me pedes!
- Agora vou alertar-te para uma situação, eu vim aqui passar uns dias, não sei quantos, os necessários para pôr a minha cabeça e as minhas forças em ordem, enquanto por aqui ficar, visitarei-te na prisão, mas quando voltar para casa, estarei presente de outro modo, certo?
- Sim! Claro, eu sei isso, não te preocupes!
Entreguei-lhe um livro…
- Leva este livro contigo, ajudar-te-á…verás aqui dor e felicidade, amor e amor!
Porque na prisão vais ter dias de dor e de muita infelicidade, mas se amares e amares, suportarás tudo, nunca te esqueças disso.
- Não esquecerei……Que lindo……conheces? Que paisagem linda…Onde fica?
- Tem calma, essas e outras perguntas irás descobrir aqui, tens muito tempo…
- Obrigado Yara! Não, Obrigado é pouco…és um anjo!
- Por favor, pára com essas coisas, só tento ser justa mais nada. E agora dá-me um abraço, que simbolizará a nossa despedida e a força que quero que tenhas para enfrentar tudo!


Demos um abraço, apetecia-me chorar, mas sorri e disse ao Paulo:
– Força, Força, vai correr tudo bem e voltaremos a encontrar-nos aqui para comemorar!

O presente [3]

Yara, Yara…
Alguém me chamava…de longe, muito longe…
Acordei…Onde estava? Sentei-me na cama e de repente os acontecimentos da noite anterior começaram a desfilar diante de mim…e atrás da porta, mais uma vez… Yara, Yara…
Levantei-me fui abrir e lá estava o Paulo, mas um outro Paulo…com um olhar diferente, parece que os seus olhos brilhavam com uma intensidade que ofuscava…
- Desculpa, acordar-te…mas, o sol já nasceu…e nem sabes o que aconteceu… abre a janela…vai ver…
Corri para a janela e abri…eu não queria acreditar no que os meus olhos viam…lá foram um tapete branco cobria todo o areal…tinha nevado, possivelmente a noite toda e eu que quase não tinha dormindo nem tinha dado conta…
- Que lindo! Adoro neve, que surpresa boa! - Exclamei
- Também eu …acredito que este seja um presente para mim, logo hoje que tenho que partir…
- Espera, deixa-me acordar, tive uma ideia…já te explico…
- Já acendi a lareira e vou preparar o pequeno-almoço.
- Calma, vou procurar-te uma muda de roupa, para tomares banho, deve haver por aqui algures…
E peça a peça a roupa lá ia aparecendo, consegui tudo e ainda um bom agasalho, o Paulo sorriu quando viu o monte de roupa que eu tinha conseguido! Enquanto ele tomava banho eu ia arrumando o meu quarto e maquinando o meu plano.
O Paulo apareceu com a “roupa nova” e foi então preparar o pequeno-almoço enquanto eu me preparava. Tomamos o pequeno-almoço em silêncio, como se já estivesse tudo dito e nada mais houvesse para dizer, mas não era isso, o Paulo ia-se “despedindo” e eu arranjando coragem para lhe explicar o meu plano, sentia o tempo a passar e de vez em quando cruzávamos o olhar, mas cada um de nós estava entregue aos seus pensamentos e ninguém ousava falar, até que foi o Paulo que arriscou…
- Yara, agradeço-te tudo do fundo do coração, nunca esquecerei estes momentos, nem aquilo que eles representaram para mim, mas agora sei que é hora de partir…
- Espera, há bocado disseste que a neve era um presente para ti, por outro lado está tudo cheio de neve, apesar de estar sol ainda demorará algum tempo até que derreta, o carro está mergulhado na neve, até à cidade ainda são alguns quilómetros e com este frio seria horrível fazermos o caminho a pé, ainda mais que eu depois teria que voltar sozinha, sei que devias partir, aliás já devias ter partido há muito tempo, em casa não temos muita comida, mas um dia também se passa de qualquer maneira, há leite, iogurtes, pão e bolachas… e se fossemos desembrulhar o presente?
Paulo levantou-se, como que não acreditando nas minhas palavras…
- Falas a sério? Achas que pode ser?
- Claro que sim! Um dia não fará diferença!!!