segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O amor...[26]





“Yara, o amor permanece, e a distância dos anos não o fez perder-se, pelo contrário aumentou, revisitei-o em cada ida á “nossa rocha”...

Aquelas palavras ficaram vários dias a tilintar na minha cabeça, porque é que de repente toda a gente me queria falar de amor? Mas eu não queria, o meu coração estava tão fechado que não se conseguiria abrir, e eu não queria…

Os dias no hospital foram passando muito lentamente, sempre imensa gente de volta de mim, havia sempre coisas para fazer. Parecia que eu era a única paciente daquele hospital e então todos ficavam de volta de mim. De repente parecia-me que todas as cores tinham saído do mundo e só tinha ficado o branco, tudo era branco… As paredes, as roupas dos médicos dos enfermeiros, os lençóis…eu só via branco. Já não estava ligada a nada e já comia. Da casa de banho tiraram estrategicamente o espelho, e eu ainda não tinha visto o meu rosto. Penso, que esperavam deixar passar mais algum tempo, para as coisas se recomporem. Eu aceitei isso com naturalidade, e deixei de fazer perguntas.

A minha mãe ausentou-se um dia para tratar de assuntos, mas nem nessa noite fiquei sozinha, a meio da noite quando acordei lá estava no cadeirão, o Jorge...Estranho…Ele nem estava de serviço…Fiquei a olha-lo muito tempo…Ele foi a pessoa que me ajudou a superar um momento difícil da minha vida, éramos imensamente amigos, até ao dia em que estragamos tudo com a porcaria do amor. Passaram-se tantos anos…quantos? Não me lembrava… Lembrava-me sim do quanto sofri por esse amor impossível…Sabia sim, que foi por causa desse amor, que fechei o meu coração a sete chaves e que não admitia que ninguém o voltasse a abrir. O Jorge continuava igual, era uns bons anos mais velho que eu, mas era um homem lindo, tinha uns olhos da cor do meu mar e um sorriso que me abraçava, e tinha ainda uma coisa fantástica…Um coração maravilhoso. Mas ainda assim, eu não queria outra coisa que não fosse a nossa amizade de volta. Apeteceu-me levantar e ir lá dizer-lhe isso, mas não era a hora, nem o momento, e adormeci embalada nesta verdade…

domingo, 12 de setembro de 2010

No hospital...[25]



Os dias que se seguiram foi como “um nascer de novo”, tive que me adaptar a tantas coisas. A primeira, o estar ali quase imóvel cheia de tubos, o ter que abrandar os meus pensamentos, e a descoberta de que as coisas podem esperar.
Depois foram todas as pessoas que por ali foram passando. Os meus “sócios”, o Jorge e o Afonso estiveram, abraçaram-me com tanto carinho, choraram e iam fazendo projecções para o futuro, depois ríamos, porque eles queriam fazer “obras” no quarto do hospital. Eu pessoalmente não, antes queria ir embora dali, aquele ambiente ponha-me doente. O Paulo também veio acompanhado de um guarda e da Maria, mas pediu para ficar a sós comigo, eu acenei com a cabeça para a enfermeira:
- Yara! Sabia que não te ia perder, pedi-Lhe tanto por ti. Pedi-Lhe até que me levasse a mim e não a ti. Não consegui dormir, nas noites que te sabia em “parte incerta”, mas agora estás aqui.
- Pois estou! Voltei! Mas, olha que do outro lado também se está bem, gostei tanto de estar lá...
- Compreendo, mas fazes falta aqui.
E abraçou-me como se o mundo tivesse acabado. O Paulo chorava, e eu tomei coragem e disse-lhe:
- Paulo, diz-me uma coisa, mas tens que ser muito sincero.
- Sim, querida, diz.
- Olha, para mim, o que vês?
- Queres que seja sincero, ou queres que te diga o que tu queres ouvir?
- Sê sincero...
- Ante os meus olhos está a mulher que eu amo, cada dia que passo essa é cada vez mais a certeza do meu viver, contigo Yara ia até ao fim do mundo!
- Mas...
- Eu sei Yara...respeito-te, mas tinha que te dizer e fui sincero, o mais possível.
Não era nada disso que eu queria, eu queria que o Paulo me falasse do meu rosto, porque é que não falava...talvez não fosse assim tão grave.
- E o Álvaro, como está?
- Não está bem, Yara, talvez não se salve, continua com diagnóstico muito reservado.
- Óh, não! Lamento Paulo.
- Pois, eu também, é meu pai; mas, sabes que nunca tivemos muita afinidade, o meu pai sempre foi o senhor durão, braço de ferro, embora tenha mudado, essa mudança já não me conseguiu atingir muito, sofri muito por causa dele, no entanto, claro que quero muito que ele fique bem. Agora tenho de ir, mas sabes que estás no meu coração.
Despedimo-nos, o Paulo era amoroso e tratava-me como se eu fosse um bibelô, agora ainda mais, e amava-me de um jeito que me marcava, mas eu apenas sentia uma grande amizade por ele, ás vezes o meu coração vacilava, mas logo vinha a certeza dos meus sentimentos.
O Miguel, o jovem pintor também me visitou e trazia consigo um embrulho enorme, era o meu quadro - Yara - foi ele que o desembrulhou, pois eu não conseguia, e à vista do mar, do meu mar, umas lágrimas iam rolando pelo meu rosto:
- Obrigado Miguel por esta surpresa, está realmente lindo, posso até ouvir o barulho das ondas e sentir o cheiro a maresia.
- Ainda bem que gostaste! Aproveito também para te deixar a chave do teu carro, que o mecânico deixou comigo, lembras?
- Ah! Sim, agora lembro o meu carro, o rapaz ficou de me entregar naquela tarde... Obrigado Miguel!
- E põe-te boa depressa, tenho sentido a tua falta por lá!

As visitas iam ocorrendo entre momentos de descanso, sentia-me cansada e adormecia facilmente, mas quando acordava sentia-me cheia de força e uma vontade enorme de sair dali e correr á beira mar, sentir os pés na areia e o voo das gaivotas, e ficava olhando o quarto branco, e o quadro do Miguel, que, não me recordava o mar, mas que era o mar, tal como o havia visto naquela manhã.
Estando eu entregue a estas meditações, vejo entrar um enfermeiro que se abeira de mim:
- Yara! Não quis ser dos primeiros, queria que te ambientasses, que sossegasses, mas estou muito feliz por teres voltado e foi penoso para mim esperar ...mas, agora estou aqui!
E abraçou-me com tanta força, que eu quase perdi a possibilidade de respirar, quem me abraçava assim, daquele modo,? Não me conseguia situar, fazia um esforço enorme para recordar, mas não conseguia...E eu permanecia em silêncio, algo alheia a tanto sentimento. Depois do forte abraço, beijou-me na testa, e continuou:
- Yara, o amor permanece, e a distância dos anos não o fez perder-se, pelo contrário aumentou, revisitei-o em cada ida á “nossa rocha”...
- Jorge, que bom ver-te de novo, mas agora cresci e o amor não faz parte dos meus planos, quero ser feliz e não é por aí.
- Continuas a ser a minha menina! E eu vou continuar a cuidar de ti!
E saiu, como que ignorando as minhas palavras, e eu sorri, continuava o mesmo de há tantos anos atrás...

sábado, 11 de setembro de 2010

O Acordar... [24]




Um cheiro forte me invadiu. Sentia dores, abri os olhos e vi uma sala branca, o sol entrava pela janela e ao fundo a minha mãe lia um livro. Eu estava cheia de tubos, nos braços, no nariz, mas que era isto? Eu estava no hospital, sim o cheiro era de hospital, ó não! Timidamente chamei a minha mãe:
- Mãe…
- Yara! Acordaste querida! Estás bem?
- Não, antes estava muito melhor, agora estou cheia de dores e por favor tirem-me já estes tubos, preciso de sair daqui rapidamente, tenho imensa coisas para fazer.
- Calma Yara. As coisas não são assim, acabas de acordar de coma e isso é maravilhoso, tem calma agora.
- Coma?
E como era isso? O que aconteceu?
- Sim, Yara tiveste um acidente de carro, recordas? Com o Dr.Álvaro, ele também não está nada bem…
- Ah…, sim, lembro-me vagamente, não do acidente, mas do Álvaro…e o Paulo? Como está o Paulo? Ai, Meu Deus! Eu tenho uma responsabilidade para com o Paulo, preciso ir á prisão já!
- Não Yara, não vais à prisão, descansa e sossega, por favor, o Paulo virá ver-te, penso eu…mas acalma-te, vou chamar a enfermeira.
- Não, espera. Preciso do meu silêncio, não quero falar com ninguém agora, sinto-me confusa, aqui há muito barulho…
- Barulho? Mas, está tudo em silêncio, o que ouves, são apenas as nossas vozes, quase em surdina.
- Mas, onde eu estava havia um silêncio azul, imperturbável…Preciso de me adaptar, a sério, não chames ninguém, e se aparecer, finge que não se passou nada, agora vai continuar a ler o teu livro…
- Yara, não sei se é boa ideia…
- Mãe! Confia em mim, preciso do meu silêncio agora, só um pouco…
A minha mãe cedeu, e eu tentei serenar, mas, apesar de não se ouvir absolutamente nada, o silêncio já não era o mesmo, onde estava o meu silêncio? Aquele que me invadia? Queria voltar lá, mas já não conseguia, as dores no corpo eram insuportáveis, via mal, tinha comichão no rosto, parecia haver crostas, não entendia...
Fiquei assim algum tempo, tentando ambientar-me, mas cada vez estava mais confusa, voltei a chamar a minha mãe:
- Mãe! De facto é melhor chamar a enfermeira, estou cheia de dores. Ah! E já agora diz-me o que tenho no rosto, sinto uma comichão terrível e…
- Cuidado, não toques…
- Não? Então?
- Ai! Filha é uma sorte estares viva, cheguei a pensar que partias…
- Mas, eu não perguntei isso, falávamos sobre o meu rosto…
E nesse momento bateram à porta e abriram, era uma enfermeira…
- Ai que alegria, então a nossa Yara já voltou? Fico muito feliz, como te sentes, amiga?
- Tenho muitas dores, antes não tinha…
- Está descansada que vamos já tratar disso! Ai, o Jorge vai ficar felicíssimo, ele foi só a casa tomar um duche, e volta de seguida.
- Jorge… quem é?
- Não te lembras do Jorgel? Olha que ele nestes dias ficou sempre por aqui no hospital, parecia o teu pai, ele adora-te menina! Mas, não te vou contar mais nada, faz um esforço para te lembrares, tá? Agora vamos tratar da medicação.
- Sim, está bem? E acha que tenho que ficar aqui muito tempo? E sabe uma coisa…tenho fome, apetece-me comer.
- Nada disso, não podes comer por enquanto, o Dr. é que vai dizer todas essas coisas que queres saber, ok? Vou já avisa-lo do teu regresso!
- Só mais uma coisa…vejo mal e o meu rosto esta estranho…
- Sim Yara! Sofreste um traumatismo craniano, e o teu rosto foi suturado, está inchado e negro, mas não te preocupes, tudo isso vai passar.
Entendi, o meu rosto devia estar horrível, cheio de linhas pretas, meu Deus e onde agora estavam as linhas a seguir iriam ficar cicatrizes, senti uma tristeza enorme nesse momento, queria ver o meu rosto, mas ao mesmo tempo não queria. Tentei tranquilizar-me, lembrei das palavras da minha mãe quando lhe perguntei sobre o meu rosto - Ai! Filha é uma sorte estares viva, cheguei a pensar que partias… - e agradecia a Deus estar viva e pedi-Lhe baixinho para não estar assim tão desfigurada como eu estava a imaginar…

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Onde estou? [23]




Onde estou? Não conseguia responder...estava sozinha? Quem acendeu a luz? Uma luz que pintava de branco todo o corredor, e me inundava de uma paz, de um estado inexplicável de bem-estar, de uma harmonia..Queria ir ao fundo do corredor, mas, onde estava o meu corpo? Queria mover-me...não! Estava bem ali...Morri? Talvez tenha morrido...Mas, espera, ouço vozes... tenho que prestar mais atenção, que dizem?

- Filha, acorda, estamos aqui ao pé de ti, não nos deixes por favor, sê forte.
Era a minha mãe, podia distinguir perfeitamente o timbre da sua voz, mas que estranho, a minha mãe chorava, não entendo, eu sinto-me tão bem; no entanto, vejo que de onde estou não consigo comunicar, mas estou bem, muito bem...não chores mãe, peço-te...

Depois havia longos momentos de silêncio, de um silêncio que nunca pudesse imaginar que existisse, de um silêncio que me preenchia de uma forma extraordinária. Podia ouvir tudo ao meu redor, apesar de não o entender, e os momentos de silêncio era cortados com algum barulho, passos, conversas entre as pessoas e outras conversas especificas dirigidas a mim, mas se eu morri, porque é que as pessoas continuavam a falar-me?
Havia muitas vozes, algumas, não as conseguia identificar, mas, outras reconhecia-as de imediato; diziam-me coisas tão profundas, com tanto carinho e terminavam sempre com a mesma frase…Não nos deixes… e eu continuava numa paz imperturbável.

Um desses longos momentos de silêncio, foi quebrado pela voz de alguém:
- Yara. Estou aqui contigo, estou feliz, apesar de tudo, feliz, porque te reencontrei ao fim destes anos todos, quase morri quando vi que eras tu, não precisei saber o teu nome, não vi os teus olhos, mas reconheci-te de imediato. Cuidei de ti, não com as mãos, mas com o coração, este coração que te pertence. Sei que estás bem, mas tens que voltar, não posso viver sem ti, e agora podemos ser felizes, escuta com atenção o que te digo… PODEMOS SER FELIZES! Agora sou um homem livre. Tu consegues Yara, sê forte, tens que voltar! Estamos à tua espera!
Não sabia quem me falava do outro lado.
Voltar. Não nos deixes…todos falavam do mesmo…e eu é que decidia?

Inexplicavelmente... [22]




A manhã ensolarada de inverno convidava a um passeio á beira-mar; fui, aquele cheiro inebriante do mar fazia-me bem, aclarava-me as ideias, e o único som envolvente, o do mar, acalmava-me as emoções. Caminhei devagar, sem pressa, e fui pensando em tudo o que se tinha transformado a minha vida, de um dia para o outro, mas sentia-me bem, se fosse hoje voltaria a fazer tudo na mesma, essa era uma das grandes certezas, a outra, era que apesar de me sentir tocada pelo Paulo, não queria nenhum envolvimento sentimental com ele, não queria porque não sei viver disso, esse amor colorido depressa perde a cor e depois, esse amor faz sofrer muito, cria feridas muito difíceis de cicatrizar, já tinha tido essa experiência e não queria voltar a repetir, sei que as pessoas dizem - Não podemos mandar no coração - eu não concordo, podemos mandar em tudo, e também no coração, eu pelo menos mando no meu, nem que isso implique mais sofrimento, mas mando, sempre mandei, desde o dia que provei o sabor amargo do amor. Gostaria de Ter um filho, mas eu vou Ter esse filho, quando chegar a altura, agora é tempo de viver a aventura da vida e quem sabe de realizar um dos meus sonhos...

Soube-me tão bem aquele passeio à beira-mar, sentia-me analisada, renovada, com uma tranquilidade infinitas…
Voltei para casa, para o trabalho, mas foi por pouco tempo, porque alguém batia à porta…
- Olá Yara, como vais?
- Bem, e tu Álvaro?
- Estou bem, precisava falar contigo. Talvez estejas ocupada, posso voltar noutra hora…
- Não, podemos falar, passa-se alguma coisa?
- Não, está descansada, são coisas minhas…Olha, o Paulo falou comigo, sobre os bens
da avó Filipa, sabes, eu tenho um filho de ouro, apesar de tudo, sempre pensei que ele tivesse gasto o dinheiro que a minha sogra lhe confiou, afinal não, até chorei quando ele me falou do dinheiro e dos bens, e venho dizer-te que fico muito feliz com a escolha do Paulo…
- Escolha? Que escolha?
- Calma…O Paulo disse que iria passar tudo para teu nome…
- Mas…eu não concordo com isso…eu não tenho nada com o Paulo, apenas somos amigos.
- Eu sei Yara, o Paulo já me explicou tudo, ele sabe que é assim e eu também, mas isso não muda nada, sei que vais administrar tudo muito bem, se for necessário eu dou uma ajuda, mas o advogado do Paulo é um rapaz muito activo, vais gostar de trabalhar com ele este assunto.
- Mas, Álvaro…eu ainda não pensei definitivamente no assunto, tenho andado muito ocupada com o meu trabalho e dentro de algum tempo irei à Grécia com os meus “sócios”, talvez só quando voltar, tenho imensa coisa para fazer…
- Está bem, será como tu queiras! Mas, olha, vim também convidar-te para ires almoçar connosco, comigo e com a Maria, aceitas?
- Ah! Não tenho carro, foi fazer uma revisão, ficaram de trazer no final da tarde…
- Não há problema, eu levo-te e depois trago-te!
- Então aceito! Tenho saudades da Maria!
- Ela não sabe que o convidado especial és tu, será uma surpresa!
- Muito bem! Vamos então!

Saímos de casa, no entanto havia a sensação em mim de que me faltava qualquer coisa, não sabia muito bem explicar o quê, procurei na carteira, mas estava lá tudo, devia ser só uma sensação e partimos, a viagem decorreu calmamente, íamos falando, e eu ia pensando o quanto o Álvaro estava diferente, no rádio cantava o Pedro Abrunhosa… Se eu fosse um dia o teu olhar…sentia-me feliz por ir abraçar de novo a Maria…
Mas, eis que de repente, inexplicavelmente o carro embateu em algo, e apenas um pensamento me ocorreu …vou morrer…

O pintor...[21]




Os dias que se seguiram foram de muito trabalho, primeiro preparar o meu escritório, criar um local onde me sentisse bem, com os materiais que tinha no momento, não ficou ainda bem como eu queria, mas agora não podia perder mais tempo. Está leve, claro e virado para o mar, como convém; depois então foi começar a trabalhar nos muitos projectos que tenho, e o trabalho ocupou-me e cansou-me de tal modo, que fui deixando para trás as preocupações em relação ao assunto do Paulo e dos bens da avó Filipa. O Paulo ligou todos os dias, sempre muito animado com os estudos e que estava bem. Prometi visita-lo ao fim de semana. Ele sempre ia dizendo para eu ir só quando pudesse, mas que tinha muitas saudades minhas e ríamos!

Todas estas manhãs enquanto trabalhava; fiquei observando algo novo. Um jovem andava por ali, ficava imenso tempo sentado na areia, virado para o mar e depois partia. Eu andava intrigada sobre quem seria, e hoje novamente ele lá estava, mas hoje pintava; por isso não hesitei, saí de casa e fui ter com ele. Aproximei-me e interceptei-o:
- Bom dia!
- Olá, bom dia!
- Desculpa incomodar, mas tenho vindo a observar-te da janela do meu escritório.
Enquanto lhe indicava a minha casa...
- Ah! E eu a pensar que estava sozinho!
- Hoje não resisti...
- Que bom!
- Como te chamas?
- Miguel e tu?
- Yara. Muito prazer!
- Que nome giro, sabes o seu significado?
- Sim! Yara é um nome indígena, e significa - Mãe das águas.
- Muito bem!
- Estou a ver que és pintor...
- Gosto de pintar, mas não naturezas mortas, o que pinto tem que estar cheio de vida, sentimentos e emoções, porque de outra forma, não pinto.
- Magnifico! Mas continua...
O Miguel era um jovem lindo, atraente, era alto, cabelo preto ondulado, olhos brilhantes, com um sorriso que parecia abraçar o mundo, e palavras cheias de algo que não conseguia entender, senti-me bem ali , e fui ficando enquanto ele ia pintando o meu mar.
- E tu, que fazes Yara?
- Sou designer de interiores .
- Que giro...E tens muito trabalho?
- Imenso!
- Que bom! Eu já te tinha visto por aí...
- Já?
- Sim! Afinal somos vizinhos! A minha casa é aquela ali...
E apontava para uma casa perto da minha.
- Ah! Que bom, estão vamos ver-nos mais vezes!
- Sim! Certamente, aparece quando quiseres, serás bem vinda!
- Obrigado Miguel! Eu digo o mesmo. Agora vou trabalhar e deixo-te entregue à tua obra de arte.
- Sabes como chama este quadro?
- Não faço ideia...
- YARA...vai chamar-se Yara!
Eu sorri. Despedi-me do Miguel e fui andando para casa, sentia-me leve, com uma sensação de bem estar interior que há muito tempo não sentia.
Quem era o Miguel? Ele não era apenas um pintor...

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O padre António [20]





Sai da prisão e dirigi-me para a igreja, iria procurar o padre António, talvez ele me conseguisse ajudar a demover o Paulo das suas ideias loucas...
Entrei na igreja, não havia ninguém, apesar de já ali ter estado, naquele dia em que fui levar o Paulo à prisão, tudo me parecia novo. Dirigi-me para o lugar que tinha ocupado na outra vez e lá estava Cristo, parece que Ele era o único que me era familiar. Por ali fiquei entregue às minhas dúvidas, aos meus pensamentos vagueantes, e fui conversando com Ele, explicando -Lhe que não entendia nada da minha vida, mas que me deixaria ir, contando com que Ele me fosse guiando. O sol já tinha ido embora, podia ver a noite que vinha vindo através dos vitrais da igreja; mas, eu não tinha pressa, sentia-me bem ali, mergulhado no silêncio e fui-me deixando ficar, até que uma voz quase silenciosa me chama:
- Yara...
Levantei os olhos, era o António.
- Olá, padre António, como vai?
- Bem e tu? Por cá?
- Está tudo bem. Precisava imenso falar consigo.
- Contigo...
- Pronto, está bem, contigo




Reparei, pela primeira vez que de facto o António era jovem, tinha um olhar que falava, que acalmava… estranho, como na outra vez nem reparei em nada...
- Então, o que se passa?
- Soube hoje que és amigo do Paulo.
- Ah! Sim! Somos muito amigos, estive com o Paulo na prisão e falamos imenso de ti...
- De mim?
- Sim...de ti. Fiquei muito contente por teres sido tu a mostrares o caminho ao Paulo, não podia imaginar, és de facto alguém de muita fé, não tens medo e isso é maravilhoso.
- Não tenho medo? Tenho muita fé? Porque é que dizes isso? Eu sou igual a todas as pessoas, tenho os meus momentos.
- Vejo que não são só momentos, mas sim algo muito mais profundo. Vives, sem pensar muito no que vai acontecer a seguir, a isso chama-se entrega, abandono nas mãos do Pai.
- Ah! Isso é verdade, porque não adianta escrever planos, os nossos planos de nada servem.
- Tens razão. Mas, disseste que precisavas imenso falar comigo, que se passa?
- É verdade.
Expliquei ao António as ideias peregrinas do Paulo, sobre os bens da avó Filipa ...
- Eu não posso permitir isso. Tem que haver uma solução...
- Entendo o teu ponto de vista. Mas, talvez não haja solução, sabes, o Paulo poderia simplesmente fazer doação e acabava o problema, mas a vontade da avó Filipa não era essa, porque se fosse, ela mesma poderia ter doado ao orfanato em vida, orfanato que hoje já nem existe, ela queria que o Paulo fosse o protagonista da obra, e o Paulo já te falou dos planos dele quando terminar o seu curso?
- Não.
- Ah! Está bem, então ele irá falar-te sobre isso certamente e aí vais entender tudo, mas agora é importante que te deixes ir, que continues entregando-te, sem questionares muito as coisas, acredita em mim, faz o que o Paulo te pede.
- Não posso...
- Porquê?
- Porque é muita responsabilidade da parte do Paulo estar a entregar algo tão importante a alguém que ele mal conhece, e isso virá dar razão ao Álvaro, e eu não estou de modo algum interessada no dinheiro daquela família. Tudo teria sido tão mais fácil se o Paulo fosse uma pessoa anónima.
- Eu sei isso tudo. Mas também sei que és alguém transparente e que tudo se irá processar de forma correcta. Não te preocupes.
- Sim, isso é certo. Mas, sinto-me desconfortável nessa situação. Vou pensar em tudo, mas já estou a ver que não tenho saída...
- Pois, possivelmente não terás...mas, deves ver isso como uma graça e não como algo mau. Por outro lado, o Paulo não tem muito a quem recorrer, porque de facto os ditos amigos do Paulo sempre quiseram tirar proveito, mas ele viu que tu és diferente.
- Bom, agora são horas de voltar para casa, já é noite.
- Não queres tomar algo antes de ires?
- Desculpa, António, fica para outro dia. Estou cansada.
- Tudo bem. Encontramo-nos em breve?
- Sim! Aparece quando quiseres. Vai almoçar um dia comigo, avisa-me antes, deixo-te o meu nº de telemóvel.

Aquelas conversas fizeram-me bem, tudo se começava a definir, no entanto continuava ainda sem saber quais eram os planos do Paulo enquanto médico, imaginava mil situações sem saber muito bem qual delas seria. Mas, teria que acalmar a minha curiosidade, pois agora era tempo de organizar o meu trabalho...